Diferentes formas de ler: experiências de formação de leitores e leitoras em contextos inclusivos

Créditos: Mais Diferenças

Por Carla Mauch[1] e Wagner Santana[2]

Ler é cuidar-se rompendo com as grades do isolamento.
Ler é evadir-se com o outro, sem, contudo,
perder-se nas várias faces da palavra.
Ler é encantar-se com as diferenças”.

(QUEIROS, 1999, p.24)

INTRODUÇÃO

Este texto busca alinhavar memórias e sentidos da nossa experiência em processos de formação de leitores e leitoras com diferentes deficiências, nos contextos inclusivos delineados nos projetos e nas iniciativas realizadas pela ONG Mais Diferenças. Assim, traz as nossas reflexões sobre estratégias diversificadas em torno do livro, da leitura, da literatura e da acessibilidade que supõem que as pessoas com deficiência podem estar nos diferentes espaços de leitura em equiparação de oportunidades com as pessoas sem deficiência, compartilhando textos, contextos, histórias, narrativas e pertencimentos que enriqueçam a experiência no mundo de todas as pessoas envolvidas.

A formação de leitores, nessa perspectiva, tem uma relação intrínseca com as mediações que propomos; com os espaços, os tempos e as materialidades que criamos para disponibilizar múltiplas formas de ler e acessar o mundo, as histórias e a literatura. Esperamos que a leitura desse texto possa contribuir e inspirar o desenvolvimento de mediações de leitura acessíveis, inclusivas e que acolham a todos, todas e todes.

Esta narrativa terá quase uma forma de caderno ou livro, que já foi lido muitas vezes e que tem notas ao lado, comentários, descobertas, relações, ações para pensar, e estará entremeado por citações de leituras e comentários como se estivessem nas margens do livro, evocando cenas vividas nos últimos anos nos processos de mediação de leitura compartilhada em grupos heterogêneos e diversos. Esperamos que esta leitura não seja truncada, mas que, como em uma colcha de retalhos, revele que os tecidos que a compõem têm muitas estampas, texturas, tempos, memórias, cores, tramas, espessuras, alinhavos, caseados, bordados e composições. O texto pretende trazer muitas vozes de pessoas e de leituras com as quais aprendemos, pensamos e alargamos nossas representações e alegorias, ou seja, o nosso repertório. Sabemos que os escritores que nos inspiram e que citamos aqui quase sempre expressam de uma forma muito mais poética e mais encantadora, por vezes mais generosa, o que sentimos e queremos dizer e que, muitas vezes, não alcançamos elaborar com similar esmero e beleza.

Vamos então à nossa colcha de memórias. Quando pensamos na formação de qualquer leitor nunca temos a certeza de que nossos desejos, recursos, estratégias e escolhas farão eco e ressonância nas pessoas que gostaríamos que se transformassem em leitores ou leitoras. É uma aposta, que supõe acreditar que o que estamos disponibilizando faz sentido, mobiliza outras pessoas. Este investimento demanda acima de tudo acreditar na potência de quem se aventura conosco nesses caminhos enquanto leitores e leitoras e na potência dos livros como aliados.

Podemos dizer que é um duplo amor: amor às pessoas e amor à literatura e às histórias, ou seja, ao mundo, como expressa Hannah Arendt, de forma muito… amorosa:

A educação é o ponto em que se decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir uma responsabilidade por ele e assim salvá-lo da ruína que, a não ser pela renovação, a não ser pela chegada dos novos e dos jovens seria inevitável. Também mediante à educação decidimos se amamos nossos filhos o bastante para não lançá-los de nosso mundo e entregá-los a seus próprios recursos, nem tirar-lhes das mãos a oportunidade de empreender algo novo, algo que nós não imaginamos, o bastante como para prepará-los com tempo para a tarefa de renovar um mundo comum”. (ARENDT, 2011, p. 247)

Para que mundos conversem, dialoguem e se encontrem é necessário que compreendamos que existem múltiplas formas de ler, de escrever, de se manifestar, por meio de uma multimodalidade de formas de produzir, ler e acessar o texto.

No entanto, é preciso que seja explicitado que não é necessariamente na primeira vez que disponibilizamos um livro ou realizamos uma mediação de leitura que essa magia acontece. Nunca sabemos quando, como e se algum dia o leitor ou a leitora nascerá, mas nem por isso desistimos dessas pessoas.

Ao pensarmos na formação de leitores e leitoras com deficiência, sabemos que este caminho pode ser mais tortuoso, não pelas dificuldades deste grupo, mas devido às barreiras que nós, como sociedade, impusemos cotidianamente às pessoas com diferentes tipos de deficiência em seu acesso à leitura. A ausência de livros em múltiplos formatos acessíveis[1], a desconsideração de que características sensoriais podem limitar o acesso aos hegemônicos livros impressos, a baixíssima oferta de mediações de leitura acessíveis e inclusivas, a pouca representatividade de pessoas com deficiência na literatura de forma diversa e potente, a quase inexistência de livros publicados por escritores com diferentes deficiências, a não valorização simbólica das pessoas com deficiência como leitores são aspectos gerais desta dinâmica de exclusão e cerceamento de direitos.

Neste sentido, Michèle Petit nos provoca:

O que podem fazer os mediadores de livros é, certamente, levar as crianças – e os adultos – a uma maior familiaridade, uma maior naturalidade na abordagem dos textos escritos. Transmitir suas paixões, suas curiosidades, e questionar sua profissão, e sua própria relação com os livros, sem ignorar os seus medos. Dar às crianças e aos adolescentes a ideia de que entre todas essas obras, de hoje ou de ontem, daqui ou de outro lugar, existirão certamente algumas que saberão lhe dizer algo em particular. Propor aos leitores múltiplas ocasiões de encontros inéditos, imprevisíveis, onde o acaso tenha sua parte, esse acaso que às vezes faz as coisas tão bem. Onde também a transgressão encontrará o seu lugar. Se tantos leitores e leitoras leem à noite, ainda hoje, se ler é muitas vezes um gesto das sombras, não é apenas por uma questão de culpabilidade: eles criam assim um espaço de intimidade, um jardim preservado dos olhares. Leem nas bordas, nas margens da vida, nos limites do mundo. E não deixam de nos surpreender.” (PETIT, 2013, p. 29)

Desde o início do nosso trabalho com livro e leitura, em uma perspectiva de acolher todas as pessoas e seus modos de experimentar a vida, fizemos um exercício de suspender alguns conceitos, certezas ou gestos para criar espaços e tempos para que as diferenças pudessem ser entendidas como forças criadoras e que alcançassem romper com modos homogêneos e excludentes, através dos quais, muitas vezes, a leitura é apresentada e trabalhada. Um exemplo: são tantas as histórias hostis que muitas pessoas têm guardadas em suas memórias de formação leitora nos espaços escolares… as leituras obrigatórias, os livros e autores selecionados, as resenhas a serem entregues, os questionários enfadonhos, a falta de amor e encantamento pelos livros de mediadores…

Essas experiências, por vezes traumáticas, não são diferentes para as pessoas com deficiência. Historicamente, as crianças, adolescentes, adultos e idosos com deficiências tiveram muitos direitos negados, entre eles o direito de desenvolver e explicitar radicalmente suas capacidades simbólicas, metafóricas, éticas e estéticas, além de sua capacidade de invenção e criação de múltiplas formas de ler, criar, escrever, fabular e estar no mundo.

As experiências leitoras, em sua grande maioria, foram inexistentes, não valorizadas, não mediadas, de forma que inúmeras vezes escutamos de pessoas com deficiência frases como: “o livro não fazia sentido para mim”, “parecia que os livros não eram para mim”, “eu não conseguia entender”, “era tudo muito difícil, que achei que não gostasse de ler”.

Por isso, quando iniciamos o trabalho com formação de leitores com deficiência de forma mais sistemática, duas posturas são fundamentais: dar tempo e acolher. Tempo para se aproximar de forma desconfiada, tempo para ler juntos, tempo para ler pouco a pouco, tempo para conversar, tempo para explicar quem foi o autor e as temáticas do livro, tempo para ler em outros tempos, tempo para a dúvida, tempo para que as vozes apareçam, tempo para o texto ser traduzido para sinais, tempo para a leitura lenta, tempo para a alegria, tempo para o desconforto… E também acolher: acolher as diferentes formas de ler, de pensar, de se expressar; acolher o não querer, acolher as potências, acolher a dor, acolher o encontro, acolher de forma atenta…

Como muito precisamente apontam Barcena e Mèlich, em seu livro “La educación como acontecimiento ético: natalidad, narración y hospitalidad”:

Outro que reclama uma relação de hospitalidade com ele, uma relação desinteressada e gratuita. Outro que me pede uma relação de doação e acolhida. O outro não pede o reconhecimento de seus direitos, senão que apela à minha capacidade de acolhida” (BARCENA & MÈLICH, 2000, p.146, tradução nossa).

Os autores aqui defendem não somente o direito, mas nos convocam para a nossa capacidade de acolhida, de olhar para o outro, de alteridade, de hospitalidade. Por isso, queremos fazer uma defesa radical da hospitalidade como uma categoria – quase existencial – nos processos educacionais e de formação de leitores. Tal hospitalidade é entendida por Derrida como:

A palavra ‘hospitalidade’ vem aqui traduzir, levar adiante, re-produzir as duas palavras que a precederam: “atenção” e “acolhimento. Uma paráfrase interna, também uma espécie de perífrase, uma série de metonímias expressam a hospitalidade, o rosto, o acolhimento: tensão em direção ao outro, intenção atenta, atenção intencional, sim ao outro. A intencionalidade, a atenção à palavra, o acolhimento do rosto, a hospitalidade são o mesmo, mas o mesmo enquanto acolhimento do outro, lá onde ele se subtrai ao tema.” (DERRIDA, 2004, p. 40)

Seguindo esse enredo, continuando na tessitura da nossa colcha, juntamos a palavra de Michèle Petit, que faz o diálogo entre a hospitalidade e os livros:

Os livros são hospitaleiros e nos permitem suportar os exílios de que cada vida é feita, pensá-los, construir nossos lares interiores, inventar um fio condutor para nossas histórias, reescrevê-las dia após dia. E algumas vezes eles nos fazem atravessar oceanos, dão-nos o desejo e a força de descobrir paisagens, rostos nunca vistos, terras onde outra coisa, outros encontros serão talvez possíveis. Abramos então as janelas, abramos os livros”. (PETIT, 2009, p. 266)

O NASCIMENTO DE LEITORES E LEITORAS – ESTRATÉGIAS MÚLTIPLAS

Queremos compartilhar aqui um processo que temos desenvolvido na Mais Diferenças há quase 10 anos, que dialoga com a formação de leitores e a produção de livros em múltiplos formatos acessíveis.

Desde o início desta aventura, as pessoas com diferentes deficiências sempre estiveram conosco, nas diferentes etapas da produção do livro – pesquisa, experimentação, produção, validação, formação de mediadores. Podemos dizer que os livros em múltiplos formatos acessíveis – aqueles que incorporam recursos como descrição das imagens, tradução e interpretação em Libras, Leitura Fácil[2], paisagens sonoras, narração e animação – nasceram porque estávamos todos juntos, nasceram do encontro das pessoas com deficiência em diálogo com nossas experiências como leitoras e leitores, docentes e profissionais que se dedicam a mediar leituras.

Existiam e ainda existem poucas experiências acadêmicas nacionais e internacionais em relação ao desenvolvimento de livros em múltiplos formatos acessíveis. O que encontrávamos eram referenciais de produção de livros acessíveis considerando as deficiências isoladamente – por exemplo, livros em braile para pessoas cegas – que não utilizavam diferentes recursos de acessibilidade de forma concomitante. Também desejávamos que este livro acessível não fosse a soma, a aglutinação de diferentes recursos de acessibilidade, mas um diálogo entre as múltiplas modalidades e sensorialidades. Queríamos colocar os livros, os recursos de acessibilidade e as pessoas com diferentes deficiências em conversação para friccionar, tensionar, descobrir o que poderia acontecer neste processo de fazer nascer um livro.

Para traduzir e materializar estas conversações, compartilhamos aqui cenas do desenvolvimento de um livro em múltiplos formatos acessíveis. No processo de produção da versão em Leitura Fácil do livro O Sonho no Caroço do Abacate, de Moacyr Scliar, trabalhamos com um grupo de jovens e adultos com diferentes deficiências, junto com pessoas sem deficiência. Neste livro – que traz as temáticas da 2ª Guerra Mundial, do nazismo, da imigração, do antissemitismo, do autoritarismo e do racismo como pano de fundo da narrativa – decidimos trabalhar sobre o contexto em que se inserem os personagens principais e os conceitos presentes no texto literário, antes de iniciar a leitura do livro. Começamos com uma conversa sobre os repertórios que os integrantes do grupo já traziam: sobre o que sabiam, se já tinham visto filmes sobre as temáticas que perpassavam o texto… Compartilhamos juntos percepções e saberes. Neste momento, foram (re)memoradas situações e cenas nas quais tinham enfrentado, em seus processos educacionais e sociais, experiências de preconceito e discriminação.

Após este tempo para o diálogo, explicamos o contexto da obra, a biografia do autor e o período em que se passa o livro. Por exemplo, preparamos um material em Leitura Fácil – com muitas imagens e textos simples – explicando um pouco mais sobre a Lituânia, Hitler, o holocausto, o nacionalismo e o totalitarismo. Todo este processo possibilitou a aproximação e antecipação de pontos chaves do livro, trazendo exemplos para que o grupo de leitores e leitoras pudesse compreender e fazer relações com temáticas similares.

Em seguida, iniciamos a leitura coletiva da primeira versão em Leitura Fácil, produzida anteriormente por uma equipe interdisciplinar. Explicamos como seria o processo de trabalho, abrimos espaço para dúvidas, explicitamos e discutimos os “modos e formas de ler”, combinamos que marcariam no texto o que não entendessem e que fizessem sugestões de reescrita para uma melhor compreensão.

Quando começamos a ler o livro, por já termos estudado antecipadamente os conceitos presentes na obra, o grupo de leitoras e leitores pode se debruçar sobre a ficção com repertório para mergulhar no texto. Em paralelo, surgia uma alegria enorme por estarem entendendo, fazendo comentários pertinentes e discutindo pontos com os quais já tinham intimidade.

Após este momento inicial de leitura coletiva, cada um dos leitores deu continuidade à leitura de forma individual e, a seguir, organizamos uma agenda de encontros e discussões. Esse percurso vem se mostrando muito rico para a formação de leitores. Muitos dos participantes do grupo inicialmente tinham uma relação negativa e de distanciamento com a leitura, devido às suas experiências prévias ou falta delas. Presenciamos, aos poucos, essa relação se transformar e, assim, foram nascendo leitores e leitoras ao mesmo tempo críticos e prazerosos em relação às suas conquistas.

É importante dizer que se trata de um grupo de leitores bastante heterogêneo em relação aos interesses, às deficiências, escolaridade, experiências leitoras, culturais e sociais. A última leitora que se juntou ao grupo é uma mulher com Síndrome de Down – Letícia Guimarães – que tem uma relação de encantamento e proximidade com a poesia e tem um livro publicado[3].

No grupo, todos assumem um compromisso enorme de criar e pensar estratégias e modos de possibilitar que a leitura possa chegar a um maior número de pessoas.  Não estão preocupados somente com a sua possibilidade de acessar o texto, mas com a ampliação total de possibilidades de acesso para todos, todas e todes. A Letícia, por exemplo, tem sempre um dicionário ao seu lado durante a leitura. A cada palavra que ela encontra no texto e que não sabe o significado, ela interrompe a leitura, vai ao dicionário e escreve em um caderno o significado da palavra. Assim, vai sugerindo palavras para serem inseridas no glossário. Com esse gesto, Letícia, acima de tudo, nos inspira e nos convoca a que também façamos este exercício. Quantos de nós fazemos este gesto de ter o dicionário como nosso companheiro fiel durante nossas leituras?

Nas nossas pesquisas e processos de produção de livros acessíveis, também utilizamos intensamente dicionários e construímos glossários, que acompanham as versões tanto em papel como audiovisual, como forma de ampliar as possibilidades de compreensão do texto e o repertório de vocabulário.

Além do dicionário como companheiro, durante todo o processo de leitura, Letícia tinha uma preocupação constante em contribuir com a ampliação da compreensão dos sentidos do texto por outros leitores, ciente de que cada encontro entre leitor e obra é singular. Uma vez Letícia propôs que substituíssemos no texto algumas palavras para que o leitor com surdez pudesse entender melhor a narração. Este gesto de Letícia revela uma aproximação com a alteridade, algo bastante complexo de conceituar e mais ainda difícil de experienciar em uma sociedade que preza pelo individualismo e competição.

Skliar faz um diálogo importante entre alteridade e diferença, que pode iluminar os gestos dos leitores com diferentes deficiências do grupo.

E não há, desse modo, alguma coisa que não seja diferença, alguma coisa que possa deixar de ser diferença, alguma coisa que  possa  ser  o  contrário,  o  oposto  das  diferenças.  Seria   apropriado dizer que as diferenças podem ser muito melhor compreendidas como experiências  de  alteridade,   um  estar   sendo   múltiplo,   intraduzível   e   imprevisível no   mundo.   Em educação não  se  trata  de  melhor  caracterizar  o  que  é  diversidade e quem a compõe, mas de melhor compreender como as diferenças nos constituem como humanos, como  somos feitos de diferenças. E não acabar com elas, não para domesticar, senão para mantê-las em seu mais inquietante e perturbador mistério.” (SKLIAR, 2005, p. 59).

Esses gestos de Letícia são somente dois exemplos dentre a multiplicidade de experiências de alteridade que os encontros do grupo de leitores alimentam. A aproximação entre Letícia e Bruno Rondon – leitores com deficiência intelectual – e Danilo Santos – leitor com surdez – gerou um grande interesse quanto à Libras e à cultura surda. Vejam a quantidade de possibilidades que se abrem quando damos tempo e atenção para que os leitores e as leitoras, as diferenças e a alteridade possam surgir e conviver.

Após muitos encontros, conversas e revisões finalizamos o livro O sonho no Caroço do Abacate na versão impressa. Com o texto em Leitura Fácil em mãos, inicia-se outro processo: o nascimento do livro em versão audiovisual com múltiplos recursos de acessibilidade. Trata-se de outro processo artesanal, que demanda dedicação de tempo para criação de múltiplas camadas narrativas por um grupo de pessoas com e sem deficiência. Nele, também florescem uma série de ricas experiências de alteridade, de formação de leitores e de produção de múltiplas formas de ler. Por exemplo, há uma intensa troca entre o leitor com surdez e o tradutor e intérprete de Libras para a criação da versão em Libras.

Em meio a todas essas experiências, aprendemos também que o desenvolvimento de livros em múltiplos formatos acessíveis não termina com a finalização das versões e seu lançamento. Com as obras disponíveis, iniciamos um ciclo de formações junto a profissionais vinculados à educação, ao livro e à leitura.

Para esses encontros de formação, consideramos fundamental contar com a participação de integrantes dos grupos de leitores junto com os formadores e as formadoras. Nas primeiras formações, havia uma sensação de estreia: estavam nervosos, inseguros, mas muito disponíveis, alegres e com uma inteireza visível. Afinal de contas, estavam saindo do lugar de não leitores – de pessoas que vivenciaram situações de exclusão em seus processos educacionais e de leitura – e adentrando na posição de formadores. No começo buscavam o nosso olhar, às vezes as palavras faltavam e a voz tremia, mas um ia ajudando o outro, a outra. Atualmente, em cada encontro nos surpreendemos com as suas falas, com as suas reflexões, com a sua escuta e olhar atentos e generosos.

Assim como este relato, pululam em nossas mentes muitas memórias e cenas em torno da mediação de leitura acessível e inclusiva e da formação de leitores, em contextos plurais e inclusivos. Nos encantaria seguir compartilhando as experiências desta imersão, que é o jeito que encontramos de produzir livros em múltiplos formatos acessíveis. De destrinchar ainda mais essa experiência de estar juntos, em grupos heterogêneos, de formar leitores, de promover ações de formação sobre mediação de leitura acessível e inclusiva. Por enquanto ficamos felizes em estender aqui, para quem se interessou em ler esta narrativa, a nossa colcha de retalhos tecida a muitas mãos, leituras, vozes, olhares, sons e gestos, a partir de proposições que giraram em torno de um livro, acreditando que há muita beleza nisso tudo, em sua profusão de cores e texturas, em cada encontro e ação experimentada, que não cessam de nos surpreender com a potência e as infinitas possibilidades de ler, escrever, falar, pensar e viver.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARENDT, Hannah. A Crise na Educação. In: Entre o Passado e o Futuro. 7.ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.

BARCENA, Fernando & MÈLICH, Joan-Carles. La educación como acontecimiento ético: natalidad, narración y hospitalidad. Barcelona: Ediciones Paidós, 2000.

DERRIDA, Jacques. Adeus a Emmanuel Levinas. São Paulo: Perspectiva, 2004.

PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009.

______. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. São Paulo: Editora 34, 2013.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. O livro é passaporte, é bilhete de partida. In: PRADO, Jason e CÓNDINI, Paulo (org.) A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argos, 1999.

SCLIAR, Moacyr. O sonho no caroço do abacate. 8.ed.  São Paulo: Editora Global, 2012.

SKLIAR,  Carlos.  A  questão  da  obsessão  pelo  outro  em  educação.  In:  GARCIA,  R.L.,  ZACCUR,  E.,  GIAMBIA-GI,  I.  Cotidiano:  diálogos  sobre  diálogos.  Rio  de  Janeiro: DP&A, 2005.


MATERIAIS COMPLEMENTARES


[1] Livro em múltiplos formatos acessíveis: são livros desenvolvido a partir dos princípios de Desenho Universal, onde todos, independentemente de sua condição ou limitação, têm acesso à mesma obra.  Reúne diferentes recursos de acessibilidade e estratégias didáticas, estéticas, tradutórias e semióticas.

[2] Livro em Leitura Fácil: é um formato de livro acessível que segue as diretrizes internacionais da IFLA – International Federation of Library Associations na Institutions – em relação à linguagem, ao conteúdo e à forma. Vários elementos, como imagens, pictogramas e glossários, apoiam o texto para ampliar a compreensão. Inicialmente foi desenvolvido para pessoas com deficiência intelectual, mas vários grupos têm se beneficiado deste formato: neoleitores, estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), imigrantes ao aprenderem uma nova língua, etc.

[3] GUIMARÃES, Letícia – A menina que andava na ponta dos pés – minhas poesias. São Paulo, Editora Biografia, 2018.


[1] Carla Mauch – Pedagoga, com formação em Educação Especial – Especialização em Deficiência Intelectual, com Pós-graduação em Tecnologia Assistiva e Mestrado em Psicologia da Educação. É uma das fundadoras e Coordenadoras da Mais Diferenças, OSCIP que desenvolve projetos de Educação e Cultura Inclusivas. Assessora e desenvolve projetos de Educação e Cultura Inclusivas há mais de 20 anos. Na Mais Diferenças vem desenvolvendo vários projetos articulados em torno do direito ao livro, à leitura e à literatura, tais como: pesquisa e produção de livros em múltiplos formatos, formação de mediadores de leitura, formação de leitores com e sem deficiências. Participa de diversas redes e coalizões em defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com ênfase na educação e cultura.

[2] Wagner Santana – Sociólogo (USP), com mestrado em comunicação e educação (Universidade Autónoma de Barcelona). Atualmente é Assessor Técnico da ONG Mais Diferenças, com atuação nas áreas de educação e cultura inclusiva e consultor do Setor de Educação da UNESCO no Brasil. No campo do livro, leitura e bibliotecas, dedica-se às temáticas da acessibilidade e inclusão. É co-autor das publicações Fortalecimento de Bibliotecas Acessíveis e Inclusivas – Manual Orientador e Guia de Mediação de Leitura Acessível e Inclusiva, produzidas pela Mais Diferenças.


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